Em meio a tanta conturbação e difamação ficamos desgostosos com a igreja. Escandalos, corrupção, interesses próprios e bajulação à líderança. A lógica majoritária é quanto mais gente na igreja mais abençoada ela é. Quanto mais abençoada, mais gente. A coisa toda se justifica, pois quanto mais gente mais dinheiro e quanto mais dinheiro mais ministérios e mais evangelismo. Quanto mais evangelismo, mais pessoas e quanto mais pessoas mais bençãos.
Entramos neste círculo vicioso sob versículos bíblicos, embasando nossa tese no Antigo e no Novo Testamento. Nas pregações ouvimos palavras de ordem de vitória e bençãos. Os mesmos púlpitos que pregam salvação pode nos por em perigo. Pessoas de boa fé, ouvem discursos que não se encaixam na cruz. Sabem que existem algo errado, mas não sabem exatamente o que é, pois os discursos citam versículos bíblicos. O olhar se divide entre a cruz e o discurso. Infelizmente, na vida de muitos, ganha o discurso, pois é o caminho mais fácil, mais plano e mais curto. Por estas e outras “cositas mas” somos fadados a declarar a morte da igreja. Cresce a cada dia a busca dos “sem igreja”, daqueles que se decepcionaram com a instituição, porém não querem perder a cruz de vista. O problema: onde se alimentam estas pessoas? Como diz minha mãe, com toda sabedoria mineira, “saco vazio não pára em pé”.
Uma situação perigosa se cria, pois começam a se formar grupos de amigos para estudar a bíblia, e isto é muito bom, porém por ser bom, mais pessoas se juntam e a coisa cresce. Pronto, lá estão os sem igreja dentro da igreja de novo. A estrutura se faz necessária. A administração dos cultos se faz necessária. O dinheiro se faz necessário. O controle daquilo que está se pregando se faz necessário. A igreja está de volta. Mas os envolvidos insistem em dizer que não pertencem a igreja alguma.
Creio que não há igrejas suficientes para todos. Queremos uma igreja especial, sem as mazelas da instituição, sem os aparatos do sistema, sem interesses particulares, enfim sem homens. Isto me faz lembrar do inferno de C. S. Lewis em “O Grande Abismo”, onde ninguém tinha vizinhos, pois a relações eram impossíveis.
Mas onde está a igreja? Talvez se olharmos um pouco mais para dentro de nós veremos um luzinha bem lá dentro. Para vê-la teremos que atravessar por uma escuridão de morte, por nossa inveja, nosso orgulho, nossa individualidade, por nossa sede de aceitação e por nossa mesquinhez. Mas se conseguirmos passar por tudo isso, poderemos ver, como uma pequenina vela acesa em uma caverna escura, a luz do Reino. Aí, pegamos esta vela com muito cuidado para que ela não se apague com nossa respiração e nem com os ventos soprados da escuridão. Começamos a fazer um “tour” dentro de nós, iluminando cada canto escuro, abrindo cada porta fechada, abrindo caminho entre as teias de aranha, que ocuparam muito espaço com o tempo. A cada canto, a cada porta, a cada teia, a luz se fortalece. Já não pode ser apagada com uma simples respiração, os ventos da escuridão tem que ser mais fortes para apagá-la, pois estamos vendo e expondo ao Reino as nossas mais íntimas dores e vergonhas.
Outros também tem feito o mesmo, iluminando suas escuridões e expondo ao Reino tudo que o fazia enxergar mais o discurso que a cruz. Estes ocupam os bancos das Assembléias, das Metodistas, das Batistas, das Nazarenos, das Deus é amor, das Universais, das Paróquias. Gente que vê além dos púlpitos, pois estão com as entranhas iluminadas. Gente que entendem que a luz que brilha nele pode ajudar outros em suas buscas, pois as mudanças quase nunca vem dos púlpitos, mas das relações.
A igreja, portanto se constrõe no desejo de encontro destas luzes, a revelia das autoridades, dos discursos, da maioria, dos poderes e dos interesses. Apenas o Espírito Santo reina absoluto, límpido e puro. As intenções são as primeiras, os abraços são sinceramente apertados e longos, os olhares são de empatia e no rosto um sorriso impagável.
Enfim, a igreja continua Santa, Pura e Imaculada, apesar dos homens, apesar de mim, a igreja vive.
Mantenha-se descalço!

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